Sobre o PL 2628/22
Pois é, parece que esse lance da regulamentação do uso das redes ainda vai ser uma grande novela. Como resolver uma epidemia de crianças/adolescentes utilizando redes sociais indevidamente sem o controle estatal e sem essa responsabilidade cair sobre os pais?
Estava lendo essa postagem no Bluesky onde aparentemente o PL 2628/22 foi aprovado na Câmara dos Deputados e vai seguir em votação para o Senado. Eles vão ser mais incisivos quanto às redes precisarem tomar medidas para mitigar o seu uso por parte de crianças e adolescentes, seja bloqueando totalmente, seja com ferramentas de controle parental.
Aparentemente eles vão passar a cobrar comprovantes como documentação, conta bancária, biometria e coisas assim, para comprovar idade. O que estão discutindo nas redes é exatamente o compartilhamento desses dados sensíveis com as Big Techs, e eu concordo plenamente nesse sentido. O que me pergunto é qual seria a solução adequeada.
O problema das crianças e adolescentes nas redes sem filtro algum é mais complexo que simplesmente culpabilizar as Big Techs, é algo que acabou sendo escancarado com as denúncias que ganharam notoriedade com a denúncia do youtuber Felca nas últimas semanas; que é a conivência da família com esses casos, de permitir que seu filho faça esse tipo de conteúdo porque dá dinheiro. Pais e mães prostituem seus filhos para ganhar dinheiro. E nesse âmbito das redes sociais, é também comum os pais deixarem as crianças as utilizarem sem filtro algum.
Essa falta de supervisão novamente tem diversos fatores de culpa, inclusive a própria irresponsabilidade dos pais em alguns (talvez maioria) dos casos. Porém questões socioeconômicas pesam nesse cenário, as vezes em casa o filho é o que mais entende de tecnologia por ter um smartphone desde cedo.
Isso por um lado, precisamos discutir que medidas tomar nesses cenários e como responsabilizar quem deve ser responsabilizado. Por outro lado, temos as plataformas que hospedam esse tipo de conteúdo, e que também lucram com isso! Elas não só hospedam, mas operam aqui em cima da lógica do capital, se dá lucro, deve ser incentivado. Então esse conteúdo continua a gerar receita sem filtro algum da plataforma. Portanto creio que primeiramente vem o mínimo, que é banir conteúdo de pornografia infantil das redes, isso de cara.
Porém tem outra problemática que o PL tenta resolver, e que foi o que gerou mais polêmica, que é a tentativa de limitar o acesso à conteúdos impróprios dentro das redes por parte da criança e da adolescente. Eles querem criar mecanismos de identificar quem está usando aquela plataforma.
Eu não sei se discordo da medida nesse sentido de precisarmos identificar o usuário, mas entendo que há uma discussão bem mais profunda sobre privacidade a ser feita. Porém acho que é unânime o descontentamento em relação a ceder esses dados à Big Tech, é simplesmente burrice. Se o que precisamos é simplesmente de uma forma de identificar o usuário, penso que poderíamos pensar em uma solução com o gov.br, não? É a plataforma oficial do governo, nós poderíamos exigir das plataformas que não permitem menores de idade a necessidade de fazer essa checagem de tempos em tempos. Para as redes que possuem conteúdo infantil, a necessidade de ferramentas de controle parental é o mínimo, ou seja, nesse caso é totalmente responsabilidade da Big Tech garantir o bom funcionamento do algoritmo e dessas ferramentas.
- Checagem de identidade de tempos em tempos com gov.br nas redes que proíbem uso para menores de 18 anos
- Ferramentas de controle parental nas redes que permitem uso por menores de 18 anos
Aqui é importante entender que quando falo de controle parental não se trata de poder vigiar tudo que o menor faz; a depender da idade, é importante discutir sobre a privacidade do adolescente também. Mas acho que seria interessante uma forma de comunicar diretamente aos responsáveis sobre algumas questões, como excessos ou crimes virtuais por exemplo. É interessante uma forma de vincular as duas contas, e permitir ao menor utilizar a rede somente ao ter um perfil adulto vinculado, seja dentro da própria rede, seja com uma autorização externa com o gov.br do responsável, por exemplo. Acho que seria interessante para mitigar o uso de perfis falsos. Mas isso são idealismos, não sei se vão haver exigências específicas, mas esse é um trabalho a ser desenvolvido por cada plataforma.
Mas é isso, aqui são puramente divagações, esse é um assunto que ainda vai dar bastante o que falar. Como falei, acho que foi uma péssima decisão fazer a checagem de identidade dessa forma, vamos ver como vai ser o desenrolar dessa história, mas entendo a necessidade de uma política nesse sentido, a exigência de ferramentas de controle parental também são essenciais.
A aprovação desse projeto pode ter impacto significativo na forma como utilizamos as redes. Algumas redes que não conseguirem se atualizar para suportar o novo formato podem parar de oferecer serviço no Brasil, mesmo que temporariamente, como rolou recentemente com o Bsky no Mississipi. Acho de extrema importância começar a aproximar a identidade física à virtual, e esse PL é positivo nesse sentido de mitigar o uso indiscriminado; porém acho que soluções que utilizem gov.br ou alguma forma de autenticação intermediária também nacional, ou seja, um órgão que receba nossos dados e só dê o aval (ou não), seriam muito mais interessantes.
No mais é isso, aguardemos cenas dos próximos capítulos.