Questões sobre filosofia da informação
Você já parou pra pensar de fato sobre o que é informação? Na nossa época contemporânea, passamos a usar o termo rotineiramente com os mais diversos sentidos, inclusive alguns intelectuais apontam que nós vivemos na Era da Informação, mas o que isso quer dizer?
O termo informação aparece ainda na antiguidade, vem do latim, do termo informatio, que seria algo no sentido de “dar forma”, ou “enformar” algo materialmente, ou até mesmo no sentido de “educar”, onde seria algo como “dar forma ao Espírito” (em Sêneca e Cícero, por exemplo). Somente alguns séculos depois, já na modernidade, que informação aparece como sendo algo como “transmitir conhecimento”, e mais recentemente, no século XX, com Shannon (1916 - 2001) e Weaver (1894 - 1978) e a teoria da comunicação, o termo ganha a ideia de “comunicar” e “reduzir incerteza”. Porém, essa atualização não para por aí, e o termo parece ganhar cada vez mais atributos, como codificação e decodificação, transmissão e recepção, e por aí vai.
Então vamos com calma, todas as significações anteriores parecem bater com o que entendemos como sendo informação. A informação de fato parece ter uma “forma” definida, ou seja, se é uma mensagem passada através da linguagem, ela irá possuir uma forma lógica, que permite a sua compreensão, porém para além disso, da forma como nós a utilizamos atualmente, o termo parece estar também ligado ao conceito de verdade e conhecimento, puxando aqui da sua utilização no Iluminismo. Quando pedimos por informação na rua, por exemplo, esperamos que a pessoa nos indique o caminho certo para o destino a que procuramos chegar. Também consideramos que uma notícia falsa não é informação, mas sim desinformação ou não-informação.
Isso não é nem um pouco trivial; nas ciências também podemos ver este vasto uso da informação. Na biologia, vemos que nossa estrutura genética possui informação armazenada em nosso DNA e RNA, por exemplo. Na historiografia, vemos que qualquer mensagem que possa ser decodificada, ou seja, que possa ser traduzida para nossa linguagem, também possui informação. Na computação, que atualmente é onde vemos que existe o emprego mais comum do termo, traz essa ideia de decodificação/codificação, endereçamento, transmissão e recepção, e por aí vai.
Além disso, temos também a ideia de que os dados apreendidos da realidade através dos nossos sentidos também se tornam informação ao serem organizados. Inclusive essa ideia faz parte da ideia do filósofo Luciano Floridi de que dados e informações são coisas distintas. O que traz aqui diversas discussões filosóficas, como a da ontologia da informação em si, ou seja, em uma perspectiva materialista, os dados empíricos estão na realidade, porém eles já são informação, ou nós que somos a medida disso tudo? As ondas sonoras são informação ou só se tornam som se existe alguém que possa apreender esses dados e os decodificar? Expandindo isso para a produção humana, será que todos os textos produzidos por nós ainda são informação se não tiver quem os interprete?
Ou seja, veja aqui que brevemente já explanei algumas problemáticas ligadas à informação. Ela parece estar de alguma forma ligada à linguagem, mas ela não é só linguagem, também se relaciona com dados sensíveis, com a sua organização e estrutura lógica. Ou seja, para ser informação, parece que é necessário haver um mínimo de organização coerente desses dados, assim como na linguagem, novamente; palavras soltas jogadas de maneira aleatória também não parecem transmitir informação alguma (a menos que se trate de alguma forma de codificação). Não à toa Shannon traz o conceito de entropia, muito utilizado na física, mais especificamente na termodinâmica, para tentar mapear o que pode ser a informação também. A entropia descreve o grau de desordem e irreversibilidade de um sistema, quanto maior a entropia, maior a desordem, e o contrário também é válido. Trazendo o conceito para a filosofia da informação, temos que quanto maior a entropia, ou seja, quanto maior a desordem daquilo que tentamos analisar, temos o contrário, menos informação é possível adquirir daquilo. Em um sentido prático, quanto maior a desordem, mais difícil é extrair alguma informação de toda aquela confusão; e não que não exista, mas é porque é mais difícil para nós apreendê-la. Faz sentido, não? Toda essa bagunça aumenta nosso grau de incerteza. Quando olhamos para a realidade, também não esperamos essa incerteza, parece que tudo funciona de maneira ordenada, objetos não se materializam e somem do nada na nossa frente, pelo menos não na nossa percepção empírica da realidade. Isso nos permite extrair alguma informação sensível da realidade, seja porque a realidade é de fato organizada, seja porque nosso aparelho cognitivo trata de filtrar e fazer essa organização para nós. Pode ser que de fato coisas estejam aparecendo e desaparecendo a todo instante ao nosso redor, inclusive, em uma perspectiva quântica esse de fato pode ser o caso, as coisas em sua escala micro parecem funcionar de uma maneira bem mais imprevisível, ainda é um mistério para nós como as relações entre elétrons, nêutrons e prótons funcionam em um núcleo atômico e seus orbitais. Mas como vivemos limitados por nossa percepção, vivemos em um mundo que pelo menos na aparência é muito bem ordenado.
Mas é isso, algumas viagens sobre Filosofia da Informação. Esse semestre estou pagando uma disciplina de Tópicos Especiais em Filosofia da Ciência com o professor Samir Gorsky, que é um estudioso dessa área, e esses questionamentos são alguns dos que investigamos durante as aulas. Como falei no início, uma conceituação precisa para o que é informação ainda está em disputa, na disciplina nos foram listadas algumas dezenas das centenas de definições do que é informação. Vivemos na autodenominada “era” de algo que não sabemos nem direito o que é, ou que pelo menos ainda não chegamos a um consenso sobre.