A estafa da mesmice
Como resistir ao desejo de não-ser? Quando tudo cansa, quando a rotina pesa, quando todo santo dia é tudo a mesma coisa, a mesma mesmice, a mesma perspectiva de amanhã e de um futuro incerto. Milhões de planos e possibilidades que nunca se concretizam, que ficam presos na mesma mesmice.
Pequenas fugas do dia a dia pouco a pouco se esvaem ao acordar e vestir novamente esse fino véu de ilusão, na crença de que a vida é para ser vivida conforme essas frágeis normas. De que a vida só faz sentido se houver algo como uma satisfação a ser alcançada, principalmente financeira, que é o que o sistema valoriza, afinal.
Ainda assim sigo desejando essa mesmice de alguma forma, por medo, talvez, afinal é tudo o que tenho, e sem ela não posso alcançar esse tão almeijado futuro incerto, de que esse sofrimento atual é o prelúdio de uma recompensa futura, vinda do simples fruto de meu próprio esforço. A vida é uma loucura.
Sábios são os cínicos, que de tudo abrem mão para viver o momento, que sabem aproveitar o momento, que acreditam com todas as suas forças que a vida é experimentar e se jogar em cada momento. Trabalhar não é um peso, peso é ter que sobreviver ao hoje preocupado com o dia de amanhã. A vida é uma loucura.
O trabalho é necessário, nos fizeram odiar algo essencial à vida humana. Do pão para comer ao teto para nos abrigar, é como uma troca equivalente, não se adquire algo sem oferecer algo de mesmo valor em troca. Empenhamos esforço para cultivar os alimentos e levantar abrigos, para produzir móveis e descartar resíduos. A vida é realmente uma loucura.
Nos fazem odiar o tédio, o ócio, que é o que desabrocha nossa criatividade. Nos fazem odiar tudo o que nos torna humanos, a curiosidade, o trabalho, a socialização e o descanso merecido. Nos enlouquecem, porém sem saírem ilesos desse processo, são escravos de seu próprio jogo.
Eles possuem o ócio, todo o fruto do nosso trabalho e o próprio sistema em mãos. Nós? Nós temos ódio e esperança, ódio por tudo o que nos roubaram e esperança de um dia recuperarmos.