Acho que eu realmente precisava dar um tempo
Estou agora há quase 6 meses sem fumar um baseado, forçadamente, e hoje acredito que realmente eu precisava dar esse tempo.
Ano passado eu comecei os tramites para tirar minha carteira de motorista, estou fazendo para as categorias A e B. Logo no início, ao tentar fazer o exame clínico - vulgo exame de vista - eu cometi uma falha por excesso de ingenuidade, sinceridade ou burrice, como queira chamar; marquei no formulário que já havia feito uso de drogas ilícitas.
Graças a essa simples escolha eu atrasei esse processo em pelo menos 3 meses, que agora já se arrasta para 6, pela necessidade de fazer o exame toxicológico. O curioso é que se eu simplesmente tivesse mentido e dito que nunca fiz uso de nenhuma substância ilítica, eu poderia estar nesse momento dirigindo muito chapado por aí.
Bom, por mais que na época eu tenha ficado revoltado e procurando alternativas, tive que ir pelo caminho mais óbvio, fazer um detox de pelo menos 3 meses, o que acabou se estendendo para 6, já que em alguns testes a janela de detecção pode chegar a até 180 dias. Desde o dia que voltei da clínica, por volta de Setembro de 2025, eu não fumei mais.
Hoje em dia eu penso que foi e está sendo uma experiência bem interessante, é a primeira vez desde a pandemia que fico tanto tempo sem fumar. Acho que se eu já cheguei a ficar 1 semana sem fumar é muita coisa, então era um hábito diário. Eu sempre advoguei que a maconha em si não vicia, o problema é o hábito, assim como diversas outras ações que não estão diretamente ligadas com o uso de determinada substância, como ficar scrollando infinitamente o feed do Instagram.
Eu sigo pensando assim, acho que o problema principal ainda é o hábito, mas agora eu também acredito que existem alguns poréns. A primeira coisa é que o meu fumar estava muito ligado ao hábito de fazer fumaça, então quando fumar canábis passou a não ser uma opção, a primeira coisa para a qual eu corri atrás foram alternativas para continuar fazendo fumaça enquanto trabalho (eu trampo de home office). Eu não sou muito fã de tabaco no dia a dia, fumo socialmente, quando saio para beber com a galera ou algo do tipo, mas somente. Então minha namorada me deu uma sugestão, a de tentar fumar camomila, e nesse sentido de fato me ajudou por um tempo.
Então essa foi a primeira questão, o hábito de fazer fumaça é complicado, e isso é algo que independe da maconha. Consegui segurar bem algumas semanas com a camomila, cheguei a comprar um pacote de tabaco mas não curti muito, quando acabou a camomila eu até cheguei a fumar mais frequentemente. Atualmente já estou há um bom tempo sem fumar camomila, e o tabaco ainda segue por aqui com mais da metade do pacote, mas não sinto um pingo de vontade de fumar.
Para além do hábito também tiveram outras questões interessantes que acontecerem comigo logo nas primeiras semanas, e que me fizeram questionar sobre como existe um quê de dependência (química ou psicológica, não sei) ali também. A primeira foi a falta de apetite, com o tempo volta ao normal, mas ali nas primeiras semanas isso acontece de fato, posteriormente eu vi outras pessoas comentando sobre essa mesma percepção, que é normal ter uma perda de apetite e até mesmo redução do peso corporal. Como eu costumava fumar antes das refeições, então tive esse impacto negativo logo no começo.
Mesma coisa sobre sonhos, você passa a tê-los com mais frequência. Essa eu já tinha ouvido falar, e inclusive esse é um dos motivos pelos quais algumas pessoas não conseguem parar de fumar, elas não gostam de ter sonhos pois acabam acordando muitas vezes a noite e acabam perdendo o sono. No meu caso, entretanto, isso não foi problemático.
Além disso também ouvi falar que podem haver casos de irritabilidade e tudo o mais, porém no meu caso acho que se misturou um pouco com a revolta do próprio ocorrido. Já que eu estava puto tanto por parar de fumar, como pelo próprio atraso que eu teria para tirar minha carteira; eu tinha planejado meu semestre na faculdade só para fazer isso, estava pagando somente duas disciplinas, o que acabou sendo em vão, já tinha pago a matrícula da autoescola, etc. Outra coisa que pode ter me ajudado a não sentir a ansiedade ou irritabilidade que alguns relatam ao parar de fumar pode ter sido os exercícios físicos, já que eu malho desde 2024.
Vou parar de fumar?
Essa é a pergunta que venho me fazendo nesses últimos tempos, eu não quero voltar a fumar na frequência que eu estava antes, fumando todo dia ao longo do dia, antes mesmo disso eu já vinha querendo diminuir a frequência e acabou que toda essa situação só veio para me forçar a isso. Porém o que mais vejo são relatos de pessoas que voltam a fumar com esse mesmo pensamento e depois retornam aos velhos hábitos, aumentando a frequência e quantidade. Então fico bem dividido em relação a isso. Minha namorada me fala muito que é questão de força de vontade, mas eu também acho que é bem mais complexo que isso.
Hoje eu ainda sinto vontade esporadicamente, mas consigo passar o dia sem sentir falta de fumar, consigo até mesmo ficar perto de pessoas fumando sem ficar tentado a dar um peguinha (e olha que eu tenho muitos amigos maconheiros). Mas eu penso comigo que isso é porque eu atualmente tenho um objetivo maior que me impede de fazer isso, se dependesse somente da minha vontade, será que também seria assim? Eu acho que não… Mas ao mesmo tempo, depois dessa experiência, acho que é a primeira vez que fico totalmente sóbrio em alguns anos, então ter essa visão de que é possível, de que eu consigo ficar numa boa e fazer coisas sem estar o dia todo chapado, me parece um grande ponto positivo.
Entretanto eu realmente não quero abrir mão de futuramente pegar a moto de a noite, ir até os pinheiros e fumar um contemplando a vista do mar noturno. O que venho refletindo bastante é sobre a importância de não perder de vista que não posso tratar a maconha como uma recompensa ou como algo que eu precise para curtir determinadas situações, que por exemplo eu posso e devo pegar a moto e sair de madrugada para contemplar a rua somente pela própria ação de fazer isso. Já que até mesmo sair de bike estava me brochando, pois eu sempre gostei de sair com o objetivo de parar e fumar unzinho em alguma praça ou algo do tipo. Então eu talvez deva me forçar a mais experiências assim. Isso não só com a maconha, mas com cerveja, cigarro, e qualquer outra substância. Passei a refletir a importância do passeio pelo passeio.
Enfim, reflexões… A maconha não é algo tão inofensivo assim. Se o eu de alguns anos atrás me ouvisse falar isso hoje, iria me enfiar a porrada. Mas eu enxergo isso não somente com o meu caso individual, mas de amigos meus próximos mesmo. Ela pode não ser tão destrutiva como uma cocaína ou um crack, mas também traz questões que precisam ser cuidadas por quem a utiliza. Esse lance de querer diminuir ou parar e ter dificuldade é uma delas, para algumas pessoas pode ser extremamente fácil, para outras pode ser uma tarefa bem mais complexa, se torna um desafio.
Porém é isso, são casos e casos, existem pessoas que utilizam a maconha para ter qualidade de vida, por ter dores crônicas, espasmos ou outras condições. Existem pessoas que conseguem ter uma relação saudável, fumar esporadicamente e não sentir falta quando não tem. Meu relato é totalmente pessoal, por mais que certas experiências possam ser compartilhadas.