Como você enxerga o fim do mundo?
Como você enxerga o fim do mundo? Essa questão pode variar dependendo do que você entende por “mundo”. Ou até mesmo de entender que esse mundo, ou mundos, já tiveram vários fins.
Recentemente eu assisti a uma mesa redonda que aconteceu no IV SIMPOFIL da UFRN, a temática era: “FIM/NS DE MUNDO/S: Tornar-se Selvagem e o Fim da Ontologia”, com Abigail Campos Leal (PUC-SP) e Jera Guarani (Tenondé Porã). A fala de ambas as convidadas foi muito interessante, e me fizeram repensar questões e reafirmar pensamentos.

A fala da Jera foi bem conservadora no melhor sentido da palavra, de preservar o que nos restou de uma ancestralidade, de perceber que estamos em uma sociedade doente, e que muitas vezes esperamos uma atitude estatal para problemas que nós mesmos deveríamos estar correndo atrás de resolver. Ela falou que precisamos pensar o que é o “suficiente”, no que tange nossas relações de consumo, talvez transpor até para a nossa vida em si. De bebermos Coca-Cola - ou até uma cervejinha - ao invés de água quando estamos com sede. De repensarmos o nosso vestuário, do descarte do lixo ao consumo de água. Os recursos naturais são finitos, as vezes há uma fé meio cega na ciência, de que tudo vai se resolver, e eu não vou dizer nem que sim nem que não, não se trata de futurologia, é mais de entender que se a mudança de hábito não for espontânea, em algum momento ela precisará ser forçada pelo Estado, caso a “ciência” permaneça refém dos interesses capitalistas burgueses e falhe em nos “salvar”. Então até quando vamos ficar nessa dinâmica de esticar a corda e esperar dar merda para só então puxar as rédeas? Aqui eu falo principalmente da questão das redes sociais, que é sobre o que escrevo principalmente, mas se expande para a nossa vida na Terra como um todo. A Jera é ativista e advoga pela cultura do povo guarani, trazendo exatamente essa perspectiva do retorno a uma culinária natural, alinhada com um cultivo natural, como um verdadeiro ecossistema integrado que esse país já foi até pouco tempo atrás (somente pouco mais de 500 anos, isso é loucura). Isso se conecta exatamente com a questão dos “mundos” que eu gostaria de comentar, e que vai se ligar principalmente com a fala da Abigail.
Nós matamos o mundo diversas vezes, inclusive o repartimos historicamente em antes e depois de Cristo. Na verdade, caso não esteja claro, é importante entender que o mundo é um conceito subjetivo. Nós vivemos de “expandir o nosso mundo”, o mundo não é simplesmente o planeta Terra, no seu âmbito pessoal talvez ele esteja mais ligado às suas conexões, seus amigos, familiares, da sua rua, do seu bairro. Aos poucos entendemos que o mundo é bem maior do que parece ser, e que a Terra talvez seja menor do que achamos que realmente era, em tamanho físico e em quantidade. Hoje sabemos fisicamente que o nosso planeta é um de vários, e que nem mesmo é dos maiores. Começamos a imaginar o que pode ter para além do que chamamos de universo. Objetivamente, nosso mundo é o qual vivemos todos os dias e que somos impelidos a agir, as vezes vivemos muito nas estrelas, mas é importante voltar para a realidade objetiva. É importante pensar em como se dá a vida em sociedade, quem somos nós e para onde nós vamos. O futuro que você vislumbra talvez seja exatamente o de alcançar as estrelas, como nós enquanto humanidade já realizamos, porém existem condições materiais para que isso possa ser realizado. É o trabalho humano que realiza esses feitos. Além disso, também é bem comum confundirmos o fim da humanidade com o fim do mundo, do nosso mundo, com certeza, mas não do mundo físico. A Terra irá permanecer, até a própria vida provavelmente ainda vai continuar na Terra por muito tempo após a humanidade se extinguir. Esse pensamento antropocêntrico de que somos nós a medida de tudo tem suas raízes também no pensamento europeu. Cada vez mais se descobre que no pensamento decolonial essas estruturas são vistas com outros olhos, de colocar o homem no seu lugar na natureza, e que temos algo a aprender com isso.
A Abigail traz aliada a essa fala do fim do mundo a questão da ontologia e de como ela é uma estrutura europeia e limitada, como ela não pode abranger a complexidade da pessoa trans ou preta. A ontologia, como explica a professora, seria a “ciência que estuda o ser dos entes”. O que isso quer dizer? Podemos pensar que o Ente se refere ao que pertence ao mundo físico, dos fenômenos, o que aparece para nós. E o Ser é a identidade que esse determinado objeto recebe, de como um objeto físico - que chamamos de ôntico - ganha o status de se tornar um “Ser cadeira” ou um “Ser mesa” para nós, que é o ontológico. O mesmo para nós, temos nosso lado fenomênico, e temos a nossa ontologia, o que de fato nós somos, dos atos que realizamos e como fomos percebidos, para além de nossa própria percepção sobre como agimos e percebemos o mundo. A Abigail coloca exatamente que não é possível esse estudo ser capaz de abranger povos não-brancos e a população não-binária, que se metamorfoseiam em sua ontologia. Então a fala da professora foi bem em um sentido decolonial, de precisarmos repensar ou talvez criar uma “nova ontologia” para atender a essas pessoas. Alinhado a isso, ela traz a perspectiva de que o “fim do mundo” também carrega do pensamento europeu na forma como o enxergamos, com uma grande catarse final, um caos absoluto seguido de uma paz plena, seja no fim absoluto, seja porque a realidade é só uma prisão para o nosso verdadeiro eu que é eterno e livre das contradições. Não, talvez o mundo acabe todos os dias, talvez sejam rupturas específicas, mas há diversos fins de mundo(s). Ironicamente isso me remete às aulas recentes que começamos a ter sobre Hegel, queremos fugir do pensamento colonial mas parece que é uma relação mais profunda que simplesmente querer ou não.
Em Hegel, o “fim” aparece como a atualização da essência, ou seja, da atualização da coisa em si. Por exemplo, pensando em uma perspectiva histórica, quando exatamente uma época histórica termina e a próxima começa? Quando que chegamos a um consenso sobre determinado acontecimento? Quando a Revolução Francesa passa a ser uma revolução e receber esse nome? Aparentemente somente após o seu fim. Para Hegel, nós só podemos fazer uma análise da história a partir dos fins. Porém o fim não acaba com o acontecimento histórico, por isso Hegel o atrela ao conceito de atualização. Quando algo se atualiza, há uma transformação, a coisa deixa de ser algo para se tornar outra. Até hoje há quem questione as contradições do período do golpe de 64 no Brasil, negando toda a repressão e enxergando como algo positivo, e a depender do movimento da história, pode ser que isso volte a ser visto como algo positivo. O ponto é, o fim não é exatamente quando a coisa termina, de quando se extingue, mas sim quando ela se atualiza, se transforma em algo novo. Na aula o professor deu exemplo dos bandeirantes, o Brasil que já os tratou como heróis por “desbravarem” as terras brasileiras, hoje possuem uma consciência histórica do sangue indígena que foi derramado para que o projeto fosse bem sucedido. E pode ser que no futuro eles voltem a ser heróis, não há como saber. Então é bem comum ao fim da vida de uma pessoa percebemos que talvez nós nem mesmo a conhecíamos verdadeiramente, e que essa essência continua a se atualizar mesmo após a sua morte.
É algo interessante a se pensar sobre o próprio pensamento decolonial, pois é um pensamento dentro de todo um sistema colonial, inclusive existem diversas discussões nesse sentido. Porém aqui eu trago duas perspectivas, a primeira é a colonial hegeliana, de que o fim está relacionado com a atualização da essência, então o pensamento decolonial é sim uma espécie de fim do pensamento colonial, ou talvez sua atual antítese, que surge exatamente da síntese entre o pensamento colonial e o originário puro. Então o pensamento decolonial vai muito mais em um sentido de resgate e preservação do que já temos, do que de um volta absoluta às origens, é realmente uma atualização. E nesse sentido de que não há um retorno, não vejo atualmente como é possível um apagamento desses movimentos que já estão implodindo governos a fora, a tal da consciência social. A segunda perspectiva é, para finalizar o texto, a questão que a Abigail trouxe sobre as contradições.
Tendemos a achar que o contraditório é sempre algo negativo, porém uma questão que a professora trouxe e que achei interessante é que isso não é necessariamente uma verdade, talvez só precisamos aprender a lidar com isso. Analisamos tudo com a lógica binária do “é ou não é”, mas que nas nossas relações sociais, que são complexas, nós somos contraditórios, pois existem escolhas que fogem da nossa capacidade de decisão, então é preciso abraçar esse nosso lado e entender o que cabe a nós fazer então. A Abigail falou que a motivação dela vem sendo a de “acender a chama” no coração das pessoas, e com a empolgação trazida pela fala dela, realmente foi algo que tenho certeza que ela conseguiu naquela noite, pelo menos comigo funcionou. De entender que o mundo se move e que nós estamos sendo movidos pelo fluxo da história e desviando do que dá, e que é preciso saber a hora de “parar de debater e começar a bater”, começar a resgatar o que nos foi e vem sendo tomado. Isso conversa bastante sobre o que venho pensado em relação à essa nova era digital, com nossa vida cada vez mais atrelada ao virtual, e o principal, de todo lixo produzido e nossa dependência em tecnologias estrangeiras. Nós cobramos uma atitude governamental que vá em um sentido de soberania digital, mas esquecemos que independente dos esforços a serem tomados, seja por políticas públicas, seja por resistência e movimentos sociais, vai ser necessária uma mudança no comportamento. Temos a tendência de esperar os processos se atualizarem para nós nos adaptarmos, porém talvez seja necessário exatamente que nos atualizemos para entrar nessa disputa de adaptar os processos às nossas necessidades. De novo, é sobre o que é “suficiente” e “necessário”.

Transcrição das imagens:
Jera Guarani Pedagoga. Foi professora e diretora da escola estadual indígena Gwyra Pepó. Agricultora e liderança guarani Mbya da terra indígena Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo, onde também realiza projetos culturais e documentários. Tem ensaios publicados em Terra: Antologia Afro-Indígena, Habitar o Antropocentro e pela Piseagrama.
Abigail Campos Leal Transita entre a arte e a filosofia. Doutora em Filosofia e professora da especialização em Ciências Humanas e Pensamento Decolonial, ambas pela PUC-SP. Public os livros Ex/Orbitâncias: Os caminhos da deserção de gênero (São Paulo, Glac, 2021), e Textes à Lire au voix haute (Paris, 2022, Brook). Participou de exposições o CCSP, Itaú cultural e CCBB. Realizou performances no Diffrakt (Berlim), Mis (Fortaleza), La Tillia (Herblay). Escreveu textos para a Bienal de São Paulo, Prêmio Pipa, Foam Magazine, Contemporary &. Foi curadora do Read My World 2024 (Amsterdam). Em 2025 é artista residente do Solar dos Abacaxis e publica dois livros inéditos.