O nascimento das bolhas digitais

No pensamento foucaultiano, o poder é uma rede difusa que está presente das mais diversas formas dentro do âmbito da sociedade; o objetivo final do poder é o controle absoluto. Ou seja, diferente de Marx que foca principalmente em uma relação de poder, a dos dominantes e dominados porém os colocando em termos de “classes econômicas”. Foucault considera aqui também as violências de gênero, de raça, sexualidade - inclusive marxistas atualmente tendem a achar que a luta da classe trabalhadora engloba essas outras.

Para Foucault, a forma como esse poder e controle se manifestam na sociedade se dá de diferentes maneiras. O poder soberano, a sociedade disciplinar e a biopolítica. Todas essas são formas de exercer o poder para Foucault, o poder soberano é bem óbvio, é aquele poder absoluto dos reis, ditadores, e qualquer figura(s) que consiga(m) manter a centralidade do poder.

A sociedade disciplinar se dá um pouco diferente, se perde um pouco da centralidade de poder para uma norma criada em umas mistura da legislação com os próprios hábitos de indivíduos dentro de uma sociedade. Aqui entram coisas bestas como aguardar dentro de uma fila, por exemplo. Não há necessariamente um controle puramente legislativo, apesar de aqui também entrarmos nesse mérito de que ela também pode ser usada com esse fim, ou seja, da legislação como forma de disciplinar sua população.

Falando em população, vem o terceiro tipo de exercício do poder, na biopolitica é onde surge o termo população exatamente como forma de controle, - lembrando que aqui é dentro do pensamento de Foucault - população LGBT, população vulnerável, população negra.

Estamos vivendo uma nova dinâmica social na contemporaneidade, as bolhas digitais surgem como essa nova forma de controle, é bem parecido com o conceito das populações, de isolar indivíduos em grupos sociais. Com a diferença aqui, primeiro, que isso se dá no digital; segundo, é muito mais fácil de tanto os isolar e os erradicar, por um lado, quanto para organizar e dar potência, por outro.

Os meios de comunicação digitais aumentaram muito a potência de mobilidade social. Nós conseguimos traçar facilmente todas as bolhas que um indivíduos circula somente se baseando em seus hábitos de consumo. Onde chegaremos com isso? Principalmente, como podemos usar isso a nosso favor?

Pensando em mobilidade social, ter dados dos deslocamentos dos indivíduos é crucial para se pensar a urbanização e controlar o fluxo desses mesmos indivíduos dentro da estrutura da cidade. Porém o que nós podemos aproveitar das bolhas digitais? Do que interessa ao estado saber do interesse de seus indivíduos e em qual bolha eles operam? Devido a forma como isso se mostra no contexto atual, com as Big Techs se utilizando desse recurso para influenciar nossos hábitos de consumo, não consigo pensar nas bolhas digitais e seu uso como tendo de nada útil para um Estado que presa pelas liberdades. No sentido de que ter esse nível de controle sobre os indivíduos não ser algo necessariamente bom.

Existe uma grande discussão sobre o limite entre autoritarismo e das liberdades individuais, não há algo como uma “liberdade de expressão irrestrita”, mas se precisamos ser autoritários para controlar determinados discursos, qual a medida ideal?