Sua rede social (provavelmente) irá desaparecer
Isso mesmo, sua rede social favorita irá desaparecer. Bom, pelo menos quando falamos das grandes redes centrais, esse parece ser o caso.
Hoje, o império americano está em claro declínio, estamos vendo um isolamento cada vez maior deles do resto do mundo, prendendo e deportando imigrantes que estão lá mesmo que legalmente, desrespeitando leis internacionais, e cada vez mais incisivos sobre o discurso que pode circular dentro do país. Na verdade, a maioria dessas coisas acontece desde sempre, porém a diferença é que dessa vez o mundo parece estar atento e não mais acarreta essas decisões arbitrárias de maneira passiva. Para além disso, os meios de comunicação evoluíram de maneira que recebemos notícias de alguns acontecimentos quase que instantaneamente, e não mais por um discurso selecionado pelas grandes mídias de jornais e televisão. Mas com isso fica em cheque o futuro das principais redes sociais digitais, afinal, a grande maioria das redes que utilizamos atualmente são americanas e hospedadas em território americano. Então me pergunto, até quando o discurso da esquerda poderá circular livremente dentro dessas mesmas redes? Os discursos pró-Palestina, pró-China ou outros países ditos “socialistas”, e do próprio discurso marxista. Afinal, temos visto na prática que, se há de fato alguma forma de alcançarmos essa “liberdade de expressão”, os EUA não são o melhor modelo para isso.
Recentemente tivemos o caso do Jones Manoel perder sua conta do Instagram, que apesar de ter sido recuperada em pouco tempo graças a ações jurídicas, mais recentemente ele vem relatando a percepção de que vem sofrendo um certo boicote na entrega de seu conteúdo na rede da Meta. Nos comentários surgiu o assunto de ser a hora de começarmos a considerar utilizar redes brasileiras, coisa que o próprio Jones parece concordar e já ter abordado em alguns de seus vídeos. Porém, os primeiros comentários vão logo no sentido de “O público a ser disputado está no Instagram e X, se migrarmos só estaremos criando câmaras de eco”, ou “Não adianta migrarmos se a burguesia brasileira vai ser contra”. Olha, eu não vou aqui ser totalmente contra essas argumentações, de fato temos diversas dificuldades ao tentarmos realizar essa migração e ainda acredito sim que estar nesses ambientes tem seu valor político, mas como comentei recentemente no texto Idealismo Histórico Dialético, apostar nesses espaços como sendo o único viável é um grande tiro no pé, precisamos criar essas alternativas desde já, precisamos enxergar a materialidade da situação que estamos vivendo.
Hoje, se a Meta decide parar de operar no Brasil, é o suficiente para matar toda a mobilização política no Brasil a nível nacional, isso tanto de esquerda quanto de direita. Não que eu ache que isso vá acontecer (não de cara, pelo menos), o mais provável antes disso é eles começarem a fazer o que já estão fazendo, de limitar determinados tipos de conteúdo relacionados a pautas de esquerda. Com isso vem o questionamento, será que realmente vamos esperar a merda explodir para começarmos a pensar em soluções?
É preciso construir essas pontes desde já, é preciso que esses influenciadores que, bem, têm capacidade de influenciar público, comecem a fazer algum movimento nesse sentido. Não é abandonar a “luta” nas redes centrais, mas é começar a construir as alternativas antes que elas se façam necessárias de fato. Ou seja, não deixar pra migrar só quando já for tarde. As eleições de 2026 estão vindo aí e esses espaços são da direita, não somente porque dominam esses espaços organicamente, o que não é totalmente inverdade já que eles “aprenderam” a dinâmica das redes antes da esquerda, mas além disso, essas plataformas são ligadas as grupos americanos de direita, seus donos são de direita, e como já vimos em eleições anteriores, eles vão sim agir arbitrariamente para impulsionar conteúdo de extrema direita e censurar conteúdo opositor.
Descentralize
Aqui mais uma vez vem meu apelo, descentralize-se, tenha pelo menos uma conta fora das redes centrais e tente a movimentar, incentive seus amigos e familiares a também terem uma e movimentarem de alguma forma, ou pelo menos se sigam e criem conexões para podermos nos organizar novamente caso necessário, isso pode ser de grande importância mais pra frente. Apostar nas redes centrais é dar um tiro no escuro, ficamos reféns das escolhas arbitrárias por parte de uma Big Tech americana.
Quando falo rede central, ou centralizada, isso inclui: YouTube, WhatsApp, Facebook, Instagram, Threads, BlueSky, Discord. Posso até encaixar a chinesa TikTok ou a russa Telegram aqui também. Além de qualquer outra rede que te impossibilite de construir uma federação do zero. O BlueSky talvez possa ser o que mais se distancia do modelo totalmente centralizado, mas ainda assim tem suas contradições e uma estrutura que no seu âmago ainda não pode ser totalmente descentralizada, principalmente no que tange ao uso do plc.directory para garantir UIDs para os usuários. Mesmo que já haja soluções para isso, não há interesse em implementar (pelo menos no momento), já que a ideia parece ser de fato haver esse certo nível de controle central. Isso, na prática, é o mesmo que dizer que quem quer que esteja na posse desse serviço de UIDs pode facilmente bloquear acesso à rede a nível de protocolo, por mais que ainda haja a possibilidade de federar todas as outras partes do sistema (AppView, Relay, servidor de moderação, e por aí vai), como é o caso do BlackSky. Mas vamos ver o que o futuro nos reserva nesse sentido.
Mas pra não ficar só no falatório, vão aqui algumas soluções práticas:
- Matrix como alternativa ao WhatsApp e Telegram
- (Fediverso) - Peertube como alternativa ao YouTube
- (Fediverso) - Mastodon como alternativa ao X e BlueSky, aqui recomendo o foco em servidores brasileiros, como:
- bolha.one
- mastodon.com.br
- É possível encontrar mais aqui: https://mastodon.br-linux.org/instancias/
- (Fediverso) - Pixelfed como alternativa ao Instagram, pelo menos no que tange fotos e vídeos curtos
- (Fediverso) - Lemmy como alternativa ao Reddit e outros agregadores de links
Lembrando que é possível auto-hospedar qualquer um desses serviços, o que, sejamos realistas, não é uma solução interessante para a grande maioria dos usuários, o mais comum é nós só nos cadastrarmos em instâncias já configuradas. Outra coisa interessante é que pelo menos nas redes que operam no Fediverso (as que marquei aí na lista), todas são interoperáveis, ou seja, com uma conta no Mastodon é possível curtir e comentar em postagens de usuários do Pixelfed, por exemplo.
Mas enfim, como sempre escrevo nos meus textos, eu não aposto em uma solução individual; o ideal seria sempre uma iniciativa estatal abraçando a ideia em favor de uma soberania digital. Porém, como é muito difícil vislumbrar qualquer movimento nesse sentido, temos que começar com o que é facilmente fazível, primeiramente de iniciativas comunitárias, como já existem na bolha.one, por exemplo, e segundo, de sindicatos, movimentos sociais e cooperativas de começarem a se preocupar com essas questões também.
Apostar na disputa nas redes centrais é necessário em um dado momento, afinal é onde estão as massas, mas não podemos dissociar essa luta da luta por uma soberania digital, ao meu ver, é impossível pensar em uma emancipação política sem essa emancipação digital, levando em conta o período histórico em que estamos vivendo.