Como fugir do autoritarismo?

Um problema no qual eu venho pensando bastante nos últimos tempos é o do autoritarismo, mais especificamente no contexto das redes sociais. Pensando em como isso dá no âmbito das redes centralizadas, e como isso se daria no âmbito das redes descentralizadas.

Esse semestre estou estudando sobre o autor alemão Herbert Marcuse, e suas ideias relativas à cultura. Isso na disciplina de Tópicos Especiais em Estética II, estamos vendo nesse primeiro momento a obra Cultura e Sociedade. Aparentemente em Eros e Civilização o Marcuse vai abordar um pouco sobre o que estou querendo investigar, que é a percepção de uma repressão psicológica no capitalismo, e como somos “reprimidos mais que o necessário”.

Viver em sociedade é se reprimir de alguma forma. Aqui pensando em um contexto freudiano - onde Marcuse baseia parte de suas ideias -, mas trazendo também um contexto contratualista. Precisamos de uma espécie de “vontade” compartilhada para não entrarmos em conflito. Qual o ponto de ruptura do homem da “natureza”? Onde surge essa “nova natureza” do homem? Em que ponto essa “vontade boa” se desvirtua? Será que já foi dotada de tal virtude?

O homem reprime parte de suas vontades em prol de um bem comum. No capitalismo isso se expande, a repressão dessa vontade é usada como forma de controle pelo sistema dominante.

Então tudo bem, também concordo totalmente nesse sentido que temos uma sociedade reprimida e que há espaço para liberdade dentro do sistema. Porém partindo do ponto de que certo nível de repressão ainda será necessário, como devemos agir? Qual o limite aceitável?

Uma ideia comum na filosofia é partirmos do princípio da autonomia, que aparece em sistemas como o de Kant. Em Kant, a ideia de autonomia não está ligada ao indivíduo ter a liberdade de simplesmente fazer o que quiser, mas está relacionada a uma determinada maioridade, no qual ele vai possuir discernimento para tomar as melhores escolhas para si. Então um indivíduo que toma atitudes sem ter esse discernimento, não está agindo com autonomia. Essa maioridade não é algo que se é ensinado, mas os indivíduos devem a buscar. É disso que se trata o iluminismo.

O princípio da autonomia, segundo Kant, é então o que nos iria garantir uma sociedade que tende a se reprimir na medida certa. De agirmos conforme um imperativo categórico. Uma vez que os indivíduos tenham discernimento a ponto de poder escolher por si, mas não só isso, também considerem o bem da comunidade durante o processo; então teremos uma comunidade de seres racionais que irão lutar pelo bem comum.

Porém somos falhos, em toda a história da humanidade nos deparamos com estruturas punitivas. Hoje graças à globalização e ao avanço tecnológico das armas de guerra, essa mão forte punitivista se expande para níveis transcontinentais. A China hoje tenta tirar um pouco o protagonismo do Estados Unidos, que por um tempo reina invicto como a maior potência mundial. Porém estamos na época que alguns avaliam que essa pode ser a queda dos EUA, por toda a estrutura de poder que anda mais difusa, ascensão da China. Porém ao mesmo tempo, parte das pessoas tende a aceitar calmamente que aconteça outra migração do “eixo” do poder, somente passar o bastão de uma potência para outra. É o autoritarismo do bem e do mal? Será que existe algo desse tipo? Eu realmente não sei…

Para Marcuse, a cultura é um importante meio de controle, pelo menos quando pensamos em algo como uma “cultura superior”, que geralmente é imposta pela classe dominante. A cultura afirmativa é essa que não nega a forma vigente de cultura, em oposição teríamos os movimentos contra-culturais, que se firmam na negatividade, que Marcuse puxa do pensamento de Hegel. Negamos a cultura vigente exatamente como forma de “mover” a cultura, assim como a negatividade na dialética de Hegel e o movimento do Espirito.

A cultura é um importante motor da história humana. No último século nossa cultura se transmuta para a de um mundo globalizado com comunicações em tempo real. O montante de informações circulando pelo mundo se desloca de maneira mais intensa. E nas redes sociais é onde encontramos cada vez mais para onde tende esse processo. A digitalização das relações sociais. Isso de fato afeta a forma como agimos; no âmbito estético, esses espaços começam a adquirir linguagem e cultura própria, seja orgânica ou não.

O algoritmo aqui é uma ferramenta burguesa para adaptar a cultura dentro desses espaços, é uma forma de formar a cultura dos indivíduos. E qual a cultura vigente? A do capitalismo neoliberal, no puro suco do individualismo e do acumulo de capital.

E por que esses espaços são tão bem sucedidos? Estamos em uma fase do capitalismo que tudo parece metafísico. Assim como Marx coloca em O Capital, que o dinheiro ganha essa dimensão “metafísica”, onde hoje percebemos o dinheiro como algo que “é por si próprio”, o “dinheiro faz mais dinheiro”, se aplicamos na bolsa de valores, por exemplo, e aquele investimento rende alguns juros, parece que não há nenhuma relação material naquele processo. Some isso ao fato da ciência e tecnologia passam por esse mesmo processo, onde as pessoas perdem o lastro material com aquele objeto que estão utilizando, e o seu funcionamento passa a receber um caráter metafísico. Vivenciamos isso hoje com o smartphone, a internet e tal conceito da “nuvem”, que nos faz criar uma imagem abstrata desse funcionamento em nossas mentes.

Quando guardamos nossas fotos e vídeos em uma “nuvem”, geralmente o que estamos fazendo é mover dados para servidores de alguma empresa. Esse é um conceito básico da computação. Nada é exotérico, é somente tecnologia, são frequências, linguagem e lógica, é tudo físico; mas parece que há uma perda com esse lastro, tendo como consequência essa eficiência em utilizar as redes sociais como ferramentas de controle; ou como estamos vendo mais recentemente, as IAs sendo uma nova forma metafísica, de uma inteligência superior que nos ajudará com nossos problemas, ou nos dominará totalmente.

Será que diluindo essas plataformas em modelos mais distribuídos, esse eixo de poder se enfraquece? Ou o contrário? Aqui me refiro às redes centralizadas e descentralizadas. As redes centralizadas tem um forte apelo ao algoritmo, pois é a partir dessa capacidade que há a manutenção do poder. Nas descentralizadas, até pode haver algoritmo, porém foge do convencional, pois temos primariamente um algoritmo mais “puro”, só vemos o conteúdo de pessoas ou comunidades que seguimos. Tendo a possibilidade de indivíduos montarem seus algoritmos. A plataforma Bluesky tem um conceito interessante de “feeds” customizados, podemos utilizar regex1 para selecionar somente postagens que possuam as palavras chave solicitadas, tendo entretanto alguns feeds da própria plataforma também. Inclusive o Threads, da Meta, fez uma implementação similar. Ou seja, somente ter isso não é sinônimo de fuga do controle. De uma perspectiva técnica, precisamos nos preocupar com o uso que essas empresas estão dando para os nossos dados. De uma perspectiva social e estética, precisamos nos preocupar com o discurso que está circulando nesses espaços, e como as grandes plataformas se aproveitam da capacidade de difundir discurso.

Os meios de comunicação são essenciais para a nossa mobilização social, elas são um meio que grupos políticos podem e devem utilizar para se organizar. Na minha opinião, redes descentralizadas são um prato cheio para auxiliar nesse processo. Eu já postei um texto sobre.

Mas explicando brevemente, redes descentralizadas são aquelas que possuem uma melhor distribuição do eixo de poder. A principal rede descentralizada que nós temos hoje em dia é o Fediverso. Pense nela como um e-mail expandido. Podemos enviar mensagens públicas e privadas, além de curtidas, repostagens, e por aí vai. As redes que integram o Fediverso operam em cima do protocolo ActivityPub. É a linguagem que permite às redes se entenderem. Ele tem suas limitações, mas a importância é se tratar de um trabalho coletivo.

Então, o Fediverso não é uma “rede social” por si só, ela é o conjunto dessas redes sociais que operam em cima de um mesmo protocolo. O maior representante é o Mastodon, uma plataforma de microblogging aberta, bem similar ao X (antigo Twitter). Porém também temos o Pixelfed, que é mais voltado para fotos, bem similar ao Instagram. Temos o Friendica, bem similar ao Facebook. O PeerTube como alternativa ao YouTube, e por aí vai. E como todas usam o mesmo protocolo, você tem um certo nível de comunicação entre elas, é possível realizar algumas funções básicas como seguir, ver, comentar e curtir o post de redes diferentes.

O mais interessante é que essas solução também são geralmente OpenSource, então eu posso hospedar o que é chamada uma instância da rede em um servidor pessoal, VPS2 ou algo assim. E então me conectar à diversas redes do Fediverso. O próprio Threads, da Meta, implementou suporte parcial ao Fediverso.

Mas então quais suas vantagens? A mais óbvia é essa melhor distribuição do eixo de poder. Indivíduos e comunidades podem se integrar ao Fediverso através de suas próprias instâncias, no que tange as instância comunitárias, precisam existir figuras responsáveis pela manutenção e moderação. Esse é um ponto que inclusive gera um dos pontos negativos desse tipo de estrutura, ponto que é facilmente contornável, entretanto.

Com essa dissolução das estruturas responsáveis por hospedar a rede, a distribuição dos dados se torna possível. Não mais fica tudo armazenado em diversos servidores controlados por uma grande corporação; mas sim cabe às comunidades virtuais essa organização e armazenamento de dados. E no cenário ideal, ao meu ver, seria montar de fato uma estrutura que opere a nível estadual e federal. Instâncias oficiais de cada Estado ou Município, de forma que possam interagir entre si e principalmente, com uma linha direta de comunicação do governo para os indivíduos inseridos nesses espaços.

Não dá para pensar em emancipação se nossos meios de comunicação em larga escala são totalmente controlados, e principalmente, por redes quase que em sua totalidade norte americanas. WhatsApp, Instagram, YouTube, Discord… Todas eles sediadas nos EUA. Como falei mais cedo, se considerarmos os dados digitais não como algo exotérico, mas como algo que tem dimensão física e precisa ser armazenado em uma estrutura, essas estruturas hoje pertencem em sua grande maioria à empresas estadunidenses. Então a nossa aposta em organização política dentro desses espaços tende ao colapso em momentos de maior tensão.

Não vejo meios de emancipação da própria humanidade se seguirmos sendo colocados dentro dessas “caixinhas mágicas” chamadas algoritmos que tentam nos encaixar em um perfil generalista. Nos ofertando conteúdo personalizado e manipulando a nossa intenção. O uso de redes sociais e de comunicação tem de ser algo fora desse espectro, precisamos retomar o controle. Parte dos influenciadores de esquerda já percebem essa questão, a da necessidade de pensar em que situação eles estão ao disputarem espaço dentro dessas plataformas, e a fragilidade dessa relação. Porém ao mesmo tempo pecam ao afirmar que essas plataformas são apenas meios e que a luta deve ser nas ruas. Precisamos buscar espaços “seguros” para nos antecipar de boicotes. De que adianta a luta nas ruas se parte substancial do nosso poder de mobilização se concentra em redes norte americanas? Grupos no WhatsApp, divulgação no Instagram, comunicação via Google e-mail, organização no Google Drive, e por aí vai. Mesmo conquistando as ruas, com um simples bloqueio nossa capacidade de comunicação vai pro ralo.

Claro que é recuperável, a história nunca caminha para trás, podem haver retrocessos, mas sempre é algo novo. Encontraremos formas de comunicação em massa, e as plataformas alternativas já estão aí para serem usadas. Existem pequenas comunidades brasileiras que caminham na direção de facilitar o uso de redes do Fediverso. Porém é sempre melhor prevenir do que remediar, é sempre mais interessante começarmos a aprender a usar estes espaços e tecnologias desde já, torna a migração bem mais tranquila.

Mas minhas questão aqui é sobre autoritarismo, entrei um pouco nisso no texto Sobre Censura e Liberdade. Pois uma vez que esses espaços são popularizados, como iremos regulamentá-los?

A professora Raquel na disciplina de Estética falou algo bem interessante, “não conseguimos pensar em um mundo sem autoritarismo”. Parece que se tornou uma necessidade, ou talvez, será que sempre foi uma necessidade? O liberalismo tendia a se opor ao absolutismo, e parece que introduziu uma forma mais branda, o autoritarismo.